Da Matéria: Três Trabalhos* de João Simões
* Os trabalhos a que aqui me refiro são os das exposições
de São Francisco (PAL,2001), de Berlim (NTSC,2002) e a da Sala do
Veado, Museu Nacional de História Natural, em Lisboa ('10 giugno -
30 ottobre 2001, 2002').
Os trabalhos de João Simões remetem-nos, não para uma pergunta
acerca da arte e dos seus próprios limites, mas antes para uma pergunta
acerca das coisas que permitem a arte. Antes do engenho humano há aquilo
que o engenho humano transforma e os instrumentos através dos quais transforma.
Mas
não se trata aqui de mostrar uma qualquer coisa que deixa precisamente
de ser coisa através da intervenção humana, na tradição
de Duchamp, por exemplo, em que um urinol se transforma em arte por uma descontextualização
desse mesmo objecto. Se o que subjaz a esta posição, de Duchamp, é a
convicção de que temos de começar a ver as coisas de um
outro modo, de que tudo pode ser uma outra coisa que não ela mesma e que
o artista cria as próprias coisas ao conferir-lhes um novo sentido, isto é,
está implícito um precisar de ver mais, no trabalho de Simões
o que está em causa não é uma falta de dar novos sentidos às
coisas, mas antes uma falta de ver as próprias coisas, porque vemos de
menos; ver mais é ver de menos.
Por conseguinte, estes trabalhos mostram
a incómoda evidência de que não sabemos bem as coisas que
utilizamos, não as vemos bem. E, independentemente disto, não só as
utilizamos constantemente como ainda nos usamos delas para produzir obras de
arte. Quando se olha para um projector o que é que se vê? Uma coisa
que
se usa para mostrar outra coisa. E essa outra coisa não é mais
importante, essa outra coisa é que é importante. Quando se olha
para um leitor de vídeo o que é que se vê? Novamente, uma
coisa que se usa para outra coisa, mais importante que ela mesma. Essas coisas,
que servem para vermos as outras mais importantes, não nos interessam
verdadeiramente senão enquanto meio para aquilo que é importante:
aquilo que elas mostram.
Mas o que elas mostram estão já à partida
inflacionadas de sentido. É como se, na pintura, as cores fossem menos
importantes do que aquilo que representam. Insistindo numa comparação
com a pintura: para Simões, independentemente do uso que se dá à cor
amarela, é necessário compreender o amarelo. O que é a cor
amarela? O que é a cor azul? O que é a cor? A pergunta, aqui, não é filosófica,
mas artística. É a arte que pergunta pelo seu próprio corpo,
não a teoria. Não é uma pergunta pela arte, mas pelo corpo
da arte, pelas suas matérias.
Não se pergunta «o que é a
arte?», mas antes «o que é que faz a arte?». Quais as
coisas, as matérias, entenda-se, que fazem com que a arte seja arte. Não é uma
pergunta pelas coisas, mas pelas coisas que fazem a arte. Não é sequer
uma pergunta pelo critério (o juízo que faz com que isto seja arte
e aquilo não). Porque não se trata de uma pergunta pelo depois
(aquilo que vai decidir o que é arte), mas uma pergunta pelo antes (aquilo
com que se faz a arte). E o mais interessante nestes trabalhos de Simões é mostrar-nos
que, sejam quais forem as definições que se tenha acerca da arte,
ela começa sempre com um inimigo. Digo inimigo e não dificuldade,
porque se pode viver bem com mais ou menos dificuldades, mas não se pode
viver bem com um inimigo.
E a arte começa com este não viver bem,
com um inimigo. Este inimigo não é da ordem do quotidiano (ainda
que o artista possa ou não tê-lo), mas da ordem do espírito.
Isto é, a arte começa com a experiência de se sentir a matéria
como inimiga.
A matéria não é necessariamente inimiga da
vida, pode até ser o contrário, mas não para a arte. E é precisamente
isto que os trabalhos de Simões nos mostram. Aquilo que vemos é o
inimigo, apenas o inimigo se nos apresenta. Mais: sentimos, compreendemos nos
seus trabalhos que sem inimigo não há sequer arte. Assim, podíamos
arriscar dizer (salvo quaisquer mal entendidos) que nos trabalhos de Simões
não vemos a arte mas porquê a arte. Ficamos tão-somente face à evidência
do inimigo, isto é, ficamos a saber que a origem da arte, de toda e cada
vez, é o inimigo, de toda e cada vez é a matéria cravada
no espírito. Ou, de outro modo, uma guerra entre a matéria e a
anti-matéria. Voltando ao amarelo, mas um passo adiante: não é sequer
o amarelo que está em causa, mas a aplicação do amarelo.
O amarelo da parede de uma casa, interior ou exterior, o amarelo de uma cadeira
ou de uma mesa não estão aqui em causa. Mas o amarelo que se usa
no quadro, na pintura. Esse amarelo que se constitui em parte de uma obra de
Mondrian, por exemplo (ou o branco no quadro White on White de Malevich), é o
que está em causa nos trabalhos de Simões. Não é a
cor transformada que importa, mas a cor que transforma. Melhor: a cor que se
cria a si mesma.
As cores das telas são, em muita da arte contemporânea, um projector
ou um leitor de vídeo. São estas as cores na tela pelas quais Simões
indaga nos seus trabalhos. O amarelo não forma uma coisa artística,
ele apresenta-se como coisa artística; o projector não mostra uma
coisa, apresenta-se como coisa. O amarelo não diz: faço-me em girassol;
ele diz sou, amarelo. Com Simões, o projector e o leitor de vídeo
são. Isto é, não são meros meios para mostrar girassóis
artísticos, mas entidades que se apresentam a si próprias enquanto
arte ou parte de uma obra de arte. É evidente a adesão destes trabalhos
ao abstraccionismo, do mesmo modo que, por exemplo, os trabalhos de Pedro Cabral
Santo (artista da mesma geração de Simões) aderem totalmente à arte
figurativa (narrativa). Por outro lado, contrariamente ao abstraccionismo, em
Simões não é a ideia que está em causa, mas a matéria.
Aliás, e uma vez mais, à imagem do trabalho de Mondrian na pintura.
A matéria é tudo.
Simões, ao recusar a narrativa e a ideia,
reconduz-nos à matéria, à insuportabilidade da matéria.
A
insuportabilidade do inimigo constantemente diante de nós. Contrariamente
ao trabalho de Cabral Santo, em que a matéria apresentada é sempre
ultrapassada por uma qualquer ideia. Veja-se, por exemplo, o seu trabalho onde
surge um urso de peluche com uma faca espetada: o trabalho não pretende
seguramente que nos detemos nas matérias envolvidas, mas precisamente
na sua ultrapassagem, isto é, um para além do que aparece. Enquanto
o trabalho deste é meta-material, o de Simões é puramente
material.
A matéria é tudo. A matéria é tudo, não
na negação do resto, mas na concentração de um ponto
de vista, de uma preocupação estética. A matéria é tudo,
mas tudo no trabalho, nesta particular preocupação estética.
Não há resquícios de contaminação ou ambições
subliminares de construções de teses. Não há um para
além a ser decifrado. Não há hermenêuticas construtivas
ou des-construtivas. A matéria apresenta-se na sua materialidade, isto é,
na sua condição de aparecer diante de nós enquanto inimigo,
isto é, enquanto uma coisa que oferece resistência. Matéria
e resistência são indissociáveis nestes trabalhos de Simões.
Os
instrumentos com que se trabalha, com os quais se apresentam as obras de arte
aparecem então diante de nós, não como aliados, mas como
inimigos. Um pincel não é uma coisa que se usa para fazer uma outra,
mas antes uma coisa desconhecida. Desconhecida porque, outra razão não
houvesse, é uma coisa pela qual não se pergunta. Aquilo, pelo qual
não se pergunta, usa-se.
E é precisamente o uso que é recusado
em Simões. Do mesmo modo que alguns escritores centram o seu trabalho
na indagação por aquilo que faz a escrita, a linguagem, Simões
centra estes seus trabalhos na indagação pelas coisas que hoje
fazem grande parte da arte contemporânea: os aparelhos de vídeo,
os projectores, os aparelhos de som. Materiais que, para ele, são coisas
pré-determinativas numa obra de arte; coisas que nos oferecem resistência.
Aquilo que é antes e necessário à obra de arte é uma
condição prévia e inexcedível, uma resistência,
portanto, isto é, aquilo ou aquele que se nos opõe. Qual é então
a relação que se estabelece entre o artista e o seu inimigo?
Os
trabalhos de Simões mostram-nos que a atitude mais comum é a de
desconhecimento completo, isto é, a arte contemporânea não
pergunta por aquilo que a concebe; ela não pergunta pelas coisas sem as
quais ela mesma não existia. E é precisamente neste desconhecimento,
na revelação deste desconhecimento, que os trabalhos de Simões
alcançam uma incontornável pertinência. Sem dúvida,
não é necessário indagar acerca da linguagem para se escrever
livros, nem tão pouco indagar acerca de projectores e aparelhos de vídeo
para se fazer obras de arte contemporânea. Mas a apresentação
de um trabalho que nos revela a matéria como um inimigo material invisível,
na concepção de uma obra, é um trabalho que assume um lugar
muito próprio na arte contemporânea. Dir-se-ia, o lugar da matéria.
Lisboa, 2004