O Rigor do Essencial
O objectivo deste breve exercício é trazer
à consciência a clarificação do estético
através de um rigor fenomenológico. E assim o farei,
através da análise de um verso de José Agostinho Baptista,
parte do poema «O Regresso dos Guerreiros», do seu último
livro, Paixão e Cinzas.
As camélias
apagam-se ao longe ao fim do dia.
Repare-se, as camélias deste verso não são
seguramente as camélias da botânica nem tão pouco as
camélias dos olhos de todos os dias (essa desatenção
oriunda do viver em funcionamento, a saber, um viver fechado no específico,
espaço e tempo onde as coisas deixam de ser coisas em si mesmas,
coisas mesmas, e passam a ser coisas funcionais; a transmutação
do essencial em valor de função). Primeiro, as camélias
do verso não são, não existem, isoladas do verso que
lhes segue (verbo apagar; presente do indicativo, terceira pessoa do plural,
conjugação reflexa): apagam-se. Segundo, o verbo - sem o qual
as camélias não são - recebe de as camélias
um ganho que de per si não possui. Terceiro, as camélias
apagam-se forma uma unidade indissociável no próprio
verso, perde-se nesta unidade as unidades dos seus signos isolados, e ganha-se
uma outra unidade, à qual se denominou metáfora. A metáfora,
sendo uma das figuras de sintaxe do verso, e a mais importante, pelo menos
aparentemente (a outra é o assíndeto), consiste em substitute
by transfer the one notion for the other of the two compared, identifies
them as it were in one image, and expresses both in a single word (E.
M. Cope). Mas não é a metáfora o que aqui interessa,
ela é aqui o que menos importa, pois aquilo que se busca, a intencionalidade
do verso, é-lhe muito anterior. A metáfora, de per si,
não possui poder para despertar uma emoção, que transcende
a estética literária e nos coloca na pura existência.
Aliás, é da própria existência que a
metáfora recebe o ganho de intencionalidade. Mais ainda, antes da
metáfora, as camélias apagam-se, é o resto
do verso, ao longe ao fim do dia, que coloca a metáfora
em posição de receber a existência. É
tempo de reouvir-se o verso:
As camélias
apagam-se ao longe ao fim do dia.
Já que se vulgarizou a metáfora, ouça-se atentamente
o resto do verso, ao longe ao fim do dia. Temos um advérbio
de lugar (longe) que tem como função sintáctica modificar
o verbo (neste caso, o verbo apagar), dois substantivos masculinos
(fim, dia) e ... Bom, os factos são estes: O verso possui
uma só oração, um sujeito (camélias), um predicado
(apagavam-se), um adjunto adverbial de lugar (ao longe), um adjunto adverbial
de tempo (ao fim), e um complemento nominal (do dia). Ainda, duas figuras
de sintaxe (metáfora, assíndeto), três substantivos
(camélias, fim, dia), três contracções preposicionais
(preposição mais artigo; ao, ao, do), e um artigo definido
plural (as). E isto seguramente não é o verso, são
considerandos que não conduzem a ele, pelo contrário, afastam-nos
para um local onde jamais o recuperaremos. Se nos é impossível
alcançar o verso através das análises sintáctica
e morfológica, avancemos uma análise semântica.
Evidentemente, as flores, quaisquer que elas sejam, não se apagam
tal as velas, os candeeiros, as simples lâmpadas ou as ancestrais
fogueiras. A multicoloração das camélias, como qualquer
cor, com excepção do negro, necessita necessariamente de luz
para se fazer aparecer. É a luz que se esgota nas camélias,
em reflexo, como um espelho, da parte final do verso ao fim do dia.
Ao longe, intensifica ou reforça a ideia, da impossibilidade
das camélias se fazerem ver, embora se perceba que é só
no fim do fim do verso. Há um jogo de claro-escuro, dia-noite, luz-trevas,
e presença-ausência. Ao fim do dia, tem um poder temporal
que ultrapassa o simples dia (dia-luz), e alarga-se até ao fim
do dia, ao fim do tempo, ao fim de tudo (ao fim da esperança).
As camélias que se apagam é, também, o declínio
dos ombros, o pensar finito que nada pode contra o envelhecimento, pode
nada contra o devir; é só uma parte que agora se esmaga. E,
assim, ao longe, e uma vez mais, intensifica ou reforça a ideia,
alagando todo o verso de melancolia, de uma soturnidade maior que ao
fim do dia. Ao longe não é somente espaço,
é, aqui, principalmente tempo. Esse ao longe é todo
o verso, o tempo que passa, que passou, a própria vida vivida, ao
longe. É o local da irrecuperabilidade da infância. Somos nós
que estamos ao longe de nós mesmos e caminhamos para o fim
do dia. Não são as camélias que se apagam, é
a vida. Este verso enraíza na tradição Grega de olhar
o tempo: caminhamos para o passado, para a morte, porque a vida (o futuro)
vâ-mo-la deixando para trás das costas.
As camélias
apagam-se ao longe ao fim do dia.
É claro que a análise semântica nada deve, isto é,
deve pouco aos conteúdos semânticos da relacionação
dos elementos dentro da proposição, do verso, ou dos conteúdos
dos elementos. A análise semântica que se efectuou, foi efectuada
por um sujeito vivencial e não por um sujeito abstracto. É
o resultado da cristalização do sentir face ao verso. Já
não é o verso nem a percepção dele; é
um critério do verso. Mas todas as questões de
critério pressupõem pelo menos a percepção daquilo
que é convertido em critério (Scheler). Qualquer análise
traz já consigo o seu antecedente, a contemplação,
só possível porque se toma contacto com as coisas mesmas.
A coisa mesma do verso reside antes do verso. E, se é verdade que
um verso não é passível de ser objectivado, não
o é menos que a sua subjectividade advém de um ganho objectivo
e universal, por parte de um sujeito vivencial. Este objecto, anterioridade
da subjectividade do verso, é um dado puro, que tem como base a auto-contemplação
imediata, isto é, tudo quanto exista por si mesmo, na vivência
e na contemplação, e precede a verdade e a falsidade. Um amor
inequívoco pelo essencial.
Abril de 1992,
Aldeia de Paio Pires