Miséria da Literatura
Terceiro volume de uma trilogia sobre a criação artística,
Vício é mais um livro de Paulo José Miranda sem concessões
ao leitor, mas com muitas recompensas para os mais perseverantes.
Ao fim de seis livros (três de ficção,
dois de poesia e um de teatro), podemos sem qualquer dúvida classificar
Paulo José Miranda
como a voz mais radical surgida nas nossas letras na década passada.
Quando digo “radical” não me refiro a universos supostamente “transgressores”;
em Paulo José Miranda a radicalidade reside na intrínseca seriedade
da temática e do discurso, que anula todo e qualquer resíduo
de “entretenimento”. Em todas as obras, mas em particular nesta
trilogia composta por Um Prego no Coração, Natureza
Morta e Vício,
encontramos um propósito de indagação de certas realidades,
mas sobretudo da própria criação, que nos fazem pensar
noutras literaturas que não a portuguesa, por exemplo no conto filosófico
de língua alemã ou, mais especificamente, nos livros desse radical
entre os radicais que foi o austríaco Thomas Bernhard. Esse é um
dos modelos que preside a esta trilogia, e que, aliás, nos remete para
um entendimento muito particular da palavra “ficção”,
quase não a distinguindo de “pensamento” e “autobiografia”.
Aparentemente, as três ficções de Paulo José Miranda
compõem uma trilogia sobre figuras portuguesas de oitocentos: Cesário
verde (Um Prego no Coração), Domingos Bomtempo (Natureza
Morta)
e Antero de Quental (Vício). E se é verdade que em cada livro se
tecem considerações que dizem respeito à biografia de cada
um destes artistas, não é menos verdade que o autor se serve deles
para falar de si próprio, não tanto em termos biografistas, mas
no que diz respeito ao seu entendimento da Arte (inspirada, maléfica,
destrutiva) e da Vida (trivial, insuficiente, claustrofóbica). Não
por acaso se fala de vida e de arte grafadas com maiúscula, porque estamos
perante um autor de filiação romântica, mesmo quando ostensivamente
nos diz que recusa o romantismo. Este romantismo que Paulo José Miranda
pratica, acrescente-se, é de certo modo impuro, uma vez que contaminado
pelo pensamento filosófico do século passado, nomeadamente por
Wittgenstein e Heidegger. Por isso, cada um destes livros se lê como um
breve tratado filosófico.
Vício é um hipotético diário dos últimos dias
de vida de Antero de Quental. Tal como nas obras anteriores, Paulo José Miranda
não se limita a pegar na biografia do autor nem a analisar criticamente
o seu tempo; aqui, uma vez mais, parte para o próprio drama estético
e filosófico que a figura escolhida encarna. Neste caso, temos o filosofo
sem obra filosófica, uma vez que Antero só escreveu alguns contributos
para uma filosofia, e não deixou uma obra sistematizada nesse campo, acabando
até por ser mais conhecido por “um cento de sonetos e um texto
acerca
da decadência dos povos peninsulares” (pág. 80). Esse drama é aqui
vivido angustiadamente, e sobrepõe-se a outras razões que levaram
ao suicídio de Antero, como os problemas de saúde, as questões
familiares, a impossibilidade de acreditar em Deus.
O Antero deste texto também vê em si mesmo os defeitos da ansiedade
e da cobardia mas, sobretudo, a falta de domínio sobre a vontade que impede
uma verdadeira vida moral e lhe tira toda a autoridade discursiva. O texto é por
isso um ensaio filosófico que põe em cena Antero como Platão
punha em cena Sócrates (transformando-o numa personagem). Assim, paradoxalmente,
a filosofia vai-se fazendo na ausência de uma filosofia, com reflexões
sobre a literatura como um vício, um vício que é como o
jogo e não conduz à felicidade. Nesse sentido, a personagem Antero
vai comentando excertos de O Primo Basílio, para nesse romance de Eça
desvalorizar a componente de critica social, que vê como apenas um pretexto
para a composição de uma tragédia.
Em última análise, este é um livro sobre a linguagem, e
sobre a crise de linguagem (no que se aproxima de um livro de Hugo von Hofmannsthal,
A Carta de Lord Chandos. Para Antero (melhor dizendo, para a voz deste texto)
a literatura transforma tudo em literatura, e assim a própria escrita é inútil
porque não age sobre o mundo. Esse “espinho da escrita” revela
a natureza masoquista da linguagem, a miséria da linguagem, miséria
essa que a certa altura se compara com a miséria do pais (uma constante
nesta trilogia). O “ganho de consciência” que a escrita traz é em
si mesmo pernicioso, e daí a recusa em escrever que se confunde com a
recusa de viver.
Antero regressa a casa para morrer e procede a uma revisão da vida que é também
um processo de desagregação da vontade e da memoria e, por fim,
uma renúncia. Antero, que Batalha Reis dizia ser a “melhor cabeça
filosófica” mas o “pior filosofo” que conhecia, frustrou
a expectativa que nele tinham os outros, e depois das aventuras fracassadas que
foram as Conferencias do casino e a Liga Patriótica, era realmente um “vencido
da vida”. Por isso, esse suicídio na solidão insular de Ponta
Delgada, em 1891, é mais um dos sinais do grande falhanço cultural
e civilizacional que foi a Geração de 70 8e que, curiosamente,
está a ser revisitada por muitos escritores actuais). Há neste
suicídio uma incapacidade de afastar a morte, ao ponto de Antero dizer
que está “apaixonado pela morte” e falar no “vício
de estar vivo” e mesmo em Deus como o “vício da justificação”.
Mas Vício tem sobretudo passagens notáveis de reflexão sobre
a escrita, como esta: “Porque escrever um livro é desejar que um
morto nos leia, não um vivo. Queremos que seja o passado a ler-nos, não
o futuro. Se os mortos não nos lerem, escrever não adianta nada” (págs.
21-22). Com a recusa do entretenimento e a secundarização do processo
de reconstituição histórica, é difícil apontar
defeitos a este texto, embora uma ou outra passagem seja um pouco explicativa
para quem está a escrever um diário íntimo.
Ao escolher Antero, “homem de esperança e de amargura”, para
encerrar esta trilogia, Paulo José Miranda aproxima-se perigosamente daquele
limiar a partir do qual só o silêncio faz sentido (...). A arte
como “desigualdade”, a poesia como “egoísmo” e,
genericamente, a criação como destruição, não
são temáticas novas, mas levam a um niilismo que, se faz todo o
sentido numa figura como Antero, pode levar a escrita (para não falar
da vida) a um beco sem saída. Se é notável o modo como Paulo
José Miranda reflecte sobre a nossa cultura na linha de um pessimismo
esclarecido e se afasta de qualquer resquício de “conversa de
salão
e politica à portuguesa”, este tipo de escrita angustiada pode facilmente
alienar leitores e levar a um afunilamento da obra. Quando não ao seu
desaparecimento. Seja como for, estes três livros são um marco na
literatura portuguesa mais recente e deviam merecer uma edição
conjunta.
Texto de Pedro Mexia in «DNA» 7.7.2001