O
Corpo de Helena ou A Insolência da Dúvida
Depois de, em 1997, ter recebido o "Prémio de poesia Teixeira
de Pascoaes", Paulo José Miranda publicou vários livros
e, entre eles,
encontra-se o O Corpo de Helena, a sua primeira obra para teatro,
sobre a qual nos propomos tecer algumas considerações. A acção
da peça
remete-nos para os conturbados dias que antecederam a decisão de punir
Tróia e reclamar a bela Helena. Páris havia levado já a
mulher do seu
anfitrião, ofendendo as leis de Zeus Xenios, que clamam por
reparação.
No entanto, nem o ânimo ansioso por aparelhar os Gregos nem a
urgência de conseguir ventos favoráveis impelem, desta vez, as
naus
mensageiras da desgraça. O drama passa-se em terra, num palácio
de
Micenas marcado pela vergonha ainda quente que se debate nas calhas
estreitas da indecisão do principal ofendido: Menelau, o esposo
atraiçoado.
Antes de procedermos a uma análise, embora sumária, da forma
como a questão é abordada, será curioso alinhar algumas
notas sobre as
opções discursivas do autor. Paulo Miranda não divide
a peça em actos
e cenas. A obra apresem a-se em scriptura continua e as didascálias
limitam-se a breves apontamentos de espaço e de movimentação,
com
o particular de algumas das informações mais pertinentes serem
incuidas no próprio texto das figuras do drama. Além disso, as
personagens são em número reduzido, de modo que poderiam ser
interpretadas sem dificuldade pelos três actores da tradição
clássica. O
lugar de protagonista pertence a Menelau, que domina a cena e sobre o
qual se abatem as maiores desgraças, de que a perda da esposa constitui
somente o evento catalisador; ao deuteragonista corresponde, em nosso
entender, a figura dupla de Ulisses/Ártemis; finalmente, o tritagonista é
encarnado por Agamémnon, que nos merece, como as outras
personagens, alguma atenção, mas não motiva tantas surpresas.
Deixámos para último lugar o Coro de mulheres, que, embora não
intervenha directamente na acção, tem o importante papel de comentar
os acontecimentos e de ir desvelando ao leitor/público os receios de
quem possui um conhecimento e compreensão superiores do percurso
trágico. Cremos, ainda, que o Coro assume uma função relativamente
próxima da que Aristóteles lhe atribuía, na medida em
que as suas
intervenções cadenciam e ajudam a identificar os vários
momentos da
acção. Além destes elementos, há ainda o concurso
de pequenos
pormenores que denunciam o cuidado posto na elaboração do Corpo
de
Helena. Isso acontece, por exemplo, com a forma como o autor refere
a pátria de Paris; tanto o faz com a designação mais divulgada — Tróia—
como opta pelas variantes de Ílion ou então de Pérgamo,
a menos
conhecida e também a que colhe as preferências de Paulo Miranda.
O mesmo se pode afirmar a respeito da utilização de epítetos
homéricos,
como quando Menelau menciona Aquiles «de pés velozes» ou«
Pósidon, o Sacudidor da Terra». Em nosso entender, a conjugação
destes elementos permite recriar um ambiente helénico e encoraja uma
visão global, embora cautelosa, da estrutura da peça segundo
as partes
da tragédia que Aristóteles definia no passo acima transcrito. É a
leitura
da obra nessa perspectiva que nos propomos delinear em seguida.
Prólogo: corresponde
ao monólogo de abertura, onde Menelau
expõe os dados essenciais do drama. O espírito do guerreiro não
está dominado pela vontade de partir para Tróia; para ele, mais
importante do que lavar a honra seria recuperar o afecto (e o corpo ardente)
da
esposa: «Quero o teu amor, o teu cheiro, as tuas lágrimas na hora
do
desejo. Helena. Não quero partir. A minha casa é onde estás.
Como
odeio as embarcações, o destino, o sangue que floresce em minha
espada.» E é precisamente a incerteza relativa ao desfecho da
empresa
— não tanto no campo militar como no coração de
Helena — que
lhe
amotina o ânimo. A evocação de Aquiles revela-se pertinente,
pois
seria também uma questão de honra ferida que o levaria, já em Ílion,
a
afastar-se do combate. Mas quanto à fama da astúcia de Ulisses,
de nada
lhe aproveitaria na situação presente: «Esta demanda não é dos
deuses, é
da dúvida.» O monólogo encerra aludindo à vergonha,
que se abatera
sobre o velho pai Atreu, e à impaciência crescente de Agamémnon
relativamente à indecisão do irmão.
Párodo: nesta primeira intervenção, o Coro de mulheres
fala em
verso sobre os prenúncios de desgraça acabados de enunciar. Neles
alinham a atitude demente de Menelau, o desgosto de Atreu, o poder do
amor, com que Afrodite marca homens e mulheres. Anuncia, por último, a entrada em cena de Agamémnon.
Primeiro Episódio: discussão entre os dois filhos de Atreu.
Agamémnon salienta a urgência de desagravar a ofensa feita a Zeus
Xenios e de limpar a vergonha que aviltava o nome do pai, apelando à lógica
do primitivo direito de talião: «Nada sei dessas
tuas palavras. A
ofensa só com ofensa se paga. É na ponta da lança que
Páris tem de
pagar. Só com sangue a casa de Tróia
restitui a honra a esta casa.» No entanto, a própria argumentação
deste Agamémnon
exibe a mesma
propensão para o excesso que o caracteriza na peça homónima
de
Esquilo. Para além do mais, a obediência cega aos desígnios
divinos
(permeada pelo orgulho ferido na afronta familiar) leva-o a afirmar,
com demasiada leveza, a disponibilidade para sacrificar, se tanto lhe
for
exigido, a vida de Ifigénia, o amor da mulher e o respeito do filho.
A esta atitude resoluta e intransigente opõe Menelau, uma vez mais,
a
dúvida cautelosa, num passo fundamental para a compreensão do
tema
da peça: «Os deuses não se importam com nossas vidas, mas
com as
deles mesmos, com suas paixões. Se agradarmos a uns, desagradamos
a outros. O melhor é termos agora a coragem de fazer frente a esta
servidão, de uma vez por todas.» É este o poder e a
ameaça da
incerteza: pôr em causa a vontade (ou capricho) dos deuses, ter a
coragem de desafiar um destino inscrito na história e que, para
Menelau, se resumiria ao de esposo preterido da bela Helena. Depois
da saída de Agamémnon, o episódio encerra com uma longa
fala do
irmão que, em delírio, vê na sua sombra a imagem de Aquiles.
Primeiro estásimo: nesta intervenção, o Coro adensa
a atmosfera de íncubo que pesa sobre a casa dos Atridas e revela
que, apesar de a desgraça ter sido motivada por desvarios amorosos,
foi Ártemis quem meditou este castigo. Anuncia, por fim, a entrada em
cena de Ulisses.
Segundo episódio: Ulisses vem insistir
igualmente na
necessidade de destruir Tróia e de evitar que Atreu sucumba à vergonha.
Porque a argumentação não surte o efeito pretendido, o
filho de Laertes
deixa entrever, irritado, que a sua aparência mortal pode ser uma
simples ilusão. Esta nota prepara já o desenlace do drama e
não
surpreende Menelau, que passa a falar-lhe como se estivesse na
presença de Zeus. As suas declarações estão impregnadas
de trágica
ironia. Ao mesmo tempo que afirma a inocência, por a única falta
que
cometeu ter sido duvidar como homem, o Atrida insiste na dureza que
representa o conhecimento revelado pelo pai dos deuses: «E o tebano
Tirésias, que pode ele fazer por nós, que fez ele por Édipo,
por Tebas?
Interpretar factos sem que os altere, assistir impotente à desgraça
prevista? É com crueldade que desvendas o ser humano, Zeus.»
Reforça, ainda, a vantagem que há em enfrentar os deuses e acaba
acometido por novo delírio (também revelado pelo Coro), identificando
na sua sombra o corpo grácil de Helena.
Segundo estásimo: o Coro identifica a desgraça instante como«
herança do amor». Este motivo, que no párodo ainda se ligava
a
Afrodite, insere-se agora na linha introduzida no primeiro estásimo,
onde o Coro revelava que fora Ártemis quem havia preparado esta
vingança. É inevitável o sentimento de que a deusa caçadora
está a
invadir de forma abusiva os domínios de Afrodite.
Terceiro episódio: reentra Agamémnon, que estranha
a
presença daquele que julga ser Ulisses, o qual acaba por sair em busca
de Atreu. Durante a sua ausência, Menelau regressa do delírio
e
procura convencer o irmão de que um deus o visitara disfarçado
na
pessoa do herói dos mil artifícios. Agamémnon não
acredita e, no
decurso da discussão, preparava-se para matar o marido de Helena,
quando é impedido por Ulisses, que anuncia a morte de Atreu. Num
momento da peça em que ainda não há certezas sobre a identidade
do
filho de Laertes, esta intervenção de Ulisses assume o carácter
da
aparição de um deus ex machina que viria encerrar o
drama, como indiciam, de resto, as palavras que profere: «Tu, Agamémnon,
irás
comandar a invasão de Tróia como se vingasses Atreu. E tu, Menelau,
em memória de Atreu, acompanharás Agamémnon. Assim, tanto
a
fúria que ferve a bílis de Agamémnon será acalmada,
quanto a honra
restabelecida. E sem mais mortes nesta casa.» A peça poderia
terminar neste momento e, a dar-se o caso, a tragédia saldar-se-ia pela
morte de Atreu, vítima da irresolução de Menelau. Ficariam,
no
entanto, estioladas importantes sementes de desgraça.
Terceiro estásimo: o Coro, que continua a ter um
conhecimento privilegiado, embora não total, dos eventos, revela que
foi Ulisses/Ártemis quem matou Atreu e não acredita que a deusa
se
contente com essa vingança.
Êxodo: é um Menelau completamente diverso o que aparece
nesta parte final da peça. Trocou o discurso delirante por uma atitude
contrita, lamentando-se de ter deixado morrer o pai sem lhe dizer a
palavra certa: de que estava pronto a lavar a honra em sangue troiano.
E é quando já invocava a ajuda divina que Ártemis, até aí acoitada
nos
traços de Ulisses, lhe revela a identidade e a ira que motivou a sua
intervenção. O Atrida ainda tentava escudar-se na demência
amorosa
provocada por Afrodite, quando a deusa caçadora o acusa de haver
incorrido num crime de hybris: «A arrogância da dúvida!
[....] Porque
dúvida pode ser um grande poder, de facto, se usada para adiar o mal,
a
consciência.» Só nesta altura se pode compreender o verdadeiro
alcance da peça. A dúvida que atormentava Menelau era a sua grande
arma, ao permitir-lhe desafiar um destino marcado, ao pôr em causa os
caprichos dos deuses, o que equivalia a negar-lhes a existência. No entanto,
a fuga de Helena foi o elemento catalisador da sua perdição.
Duvidara que o corpo da amada, espojado agora nos braços de Paris, lhe
devolvesse o ardor de outrora; duvidara, portanto, do sucesso de uma
empresa punitiva e do resgate da honra; duvidara e a incerteza pusera
em causa as determinações divinas. Haveria de ser o pai a devolver-lhe
a consciência da responsabilidade na sua morte, mas também a
consciência de que se seguiriam ainda o fim de Ifigénia, Aquiles,
Agamémnon, Clitemnestra. E a sua pena seria equivalente à de
Tirésias: conhecer a desgraça propínqua e saber-se impotente
para a
alterar. Tal como o Coro comenta, na derradeira intervenção: «Pior
sorte do que a morte / por certo, a consciência».
E assim terminamos esta rápida abordagem de O Corpo de Helena de
Paulo José Miranda. Cremos estar perante um tratamento curioso e
original da tragédia da casa dos Atridas. A peça levanta muitas
outras
questões que seria interessante discutir, desde a caracterização
das
personagens até à actuação de Ártemis e à concepção
global do homem
e dos deuses. Não cabe aqui desenvolvê-los, mas fica a expectativa
de
que este apontamento breve motive outras leituras e análises mais
profundas.
Texto de D. F. Leão in «Boletim de Estudos Clássicos» Coimbra Dezembro 1998