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A Impossibilidade da Vida

Paulo José Miranda – que paralelamente ao da poesia segue um muito saudado e premiado percurso no domínio da ficção –, publicou até à presente data dois livros de poesia: A Voz Que Nos Trai (VQNT), Lisboa, Cotovia, 1997; e A Arma do Rosto (AR), Lisboa, Cotovia, 1998. Aguarda-se a publicação de um terceiro volume.

A Voz Que Nos Trai é constituído por seis conjuntos de poemas, dos quais o primeiro, "Antes dos Dias" – que corresponde a um único poema –, funciona, na verdade, como uma espécie de introdução aos dois conjuntos onde se reúne o núcleo central de poemas do livro: "Os Dias" e "De Novo os Dias". Nesse poema introdutório nos deteremos daqui a pouco.

Para já, registe-se que o conjunto que me parece mais distante do tom geral do volume é "À Sombra do Jardim de Camões". Razões de índole formal, por um lado, sustentam esta afirmação: trata-se de textos brevíssimos, sendo o primeiro e o último constituídos por 3 versos e os restantes maioritariamente por dísticos. Por outro lado, esta brevidade verbal compagina-se com o tom aforístico dos versos e serve bem um propósito, digamos, microscópico, detendo-se o Autor em pequenos pormenores que, assim revelados, ganham uma maior dimensão:

"Na paz que não consigo
és o mal que eu fui outrora."
(VQNT, 53)

"Caminhar até mim é ir até onde?
Encosto o ouvido ao teu seio
escuto o mar."
(VQNT, 54)

Deve constatar-se, ainda, o tom marcadamente lírico destes versos, assim como uma maior concentração e tensão na trama verbal. O afirmado projecta-se, irradia, amplifica-se no espaço da leitura, subitamente maior e que reclama do leitor um maior esforço no preenchimento do sentido desses espaços que ficaram em branco e vão ecoando na leitura. No seu ímpeto lírico, estes versos são uma espécie de contraponto edénico relativamente ao resto do volume, marcado por uma mais áspera intenção realista.

Fixemo-nos então, por momentos, no extenso poema introdutório de A Voz Que Nos Trai. Nele se anuncia o tom do livro e se contêm já alguns dos seus principais componentes. Tem por título "A casa", configurada como reduto, lugar onde o sujeito se encontra a salvo das agressões. Aí encontramos um sujeito solitário, expectante, que olha o mundo através duma janela. Aí encontramos um sujeito que, contra a vida, maneja palavras e anseia por um grito libertador:

"Escuto de mim para mim estes versos.
Queimo-me a respirar o ar
com os olhos parados frente às maçãs de verão.

[...]
Quando amanhã for dia, o sol iluminará o monte,
então verei o homem que aqui vive, só, como um grito."
(VQNT, 16-17)

Olhar pela janela pode também significar uma atenção aguda ao movimento do mundo, ao quotidiano, ainda que tal atenção tenha um cunho deceptivo e consista predominantemente numa denúncia e numa recusa, como os versos de “Os Dias” e “De Novo os Dias” permitem constatar. A "previsibilidade" (VQNT, 41), a rotina casa-trabalho-casa, só interrompida por um ocasional acidente (VQNT, 40), são sintomas de modos de vida regidos pela repetição, pelo desencanto, pelo vazio. Uma tal mecânica tem tamanho peso que pode mesmo conveter o próprio esquecimento em objectivo:

"Dois homens, somente dois vigiavam os restos de luz.
Aguardavam no desassosego das mãos
uma claridade, o esquecimento.
Qualquer coisa como a errância dos carros,
a memória pecadora das mulheres."
(VQNT, 60)

Vive-se, então, em pura imanência, e tudo fica aquém. Estamos, de facto, perante “uma poesia voltada para a banalidade do quotidiano” (Guimarães, 1998). A pergunta "não é urgente um pouco menos de sonho?" (VQNT, 44) deve ser inserida num contexto em que um desejo de além, digamos, é trocado por estratégias que tornem a vida sustentável, no limite da suportabilidade. De qualquer forma, há sempre uma traição, seja em que sentido for, o que equivale tanto a reconhecer que "Querias escrever um livro. / Encontro-te com casa a pagar, carro, mulher e filho. / Os teus dias são dinheiro e um mês inteiro." (VQNT, 34) quanto a admitir que "A tristeza com que guarda o livro / não anula a certeza de que fez bem em deixar a mulher." (VQNT, 37). E noutro poema admite-se expressamente que "Ao fim do dia conhecemos todas as desculpas / para não assumirmos a própria morte, voltar a casa." (VQNT, 32). No limite, estas estratégias de sobrevivência baseiam-se na certeza de que "será impossível qualquer ruptura ontológica" (VQNT, 35).

Um forte sentido de perda acaba por ser o mais marcante destes versos de Paulo José Miranda. Poemas como "Retrato da morte" (VQNT, 66) ou "Iniciação" (VQNT, 68) dizem-nos que facilmente se passa ao lado da vida. Mas o mais interessante desta poesia é nunca essa perda assumir um tom magoado ou trágico – o que quase equivale a dizer que ela será mesmo inevitável –, inserindo-se ou tomando por ponto de partida factos ou situações quotidianas, como acontece de forma particularmente feliz e eficaz no poema "A hora":

"Alguns minutos para além das dezoito.
Lisboa e tanta gente.
Venho numa desilusão pequena,
mas cuido muito.

Perdi o barco, nem tento.
Tudo se perde nesta hora."
(VQNT, 45)

Veja-se como uma intenção mais directa de crítica social se cruza com temáticas e preocupações existenciais e que radicam nas vivências individuais. É de realçar o modo como o sentido de perda ganha expressão numa assumida desistência ou na distância:

"Chamamos homem a tão pouco e até se ama por isso.
Veste-te, agora veste-te para a cidade,

escuta os malefícios de um gesto que não quiseste.
Mais simples que isto não consigo,
tudo é tão tarde que já nada tarda."
(VQNT, 38)

"É tudo tão vago, tão longe,
pergunto mesmo se há verdade para além d'hoje."
(VQNT, 63)

A mágoa inexplicável e a "imperseverança" (VQNT, 67) ou um "duplo horror" (VQNT, 59), são alguns sintomas de uma doença que se confunde com a voragem das palavras, o monstruoso infinito do livro, doença essa com tonalidades melancólicas:

"O médico proibira-lhe a música,
só algumas valsas de Strauss, pop e trash.
Coisas sem culpa, nada de coisas duras:

Thomas Tallis, Pergolesi, qualquer outro requiem.
E a todo o custo se afastasse do livro negro.
É que a Bíblia é o inferno."
(VQNT, 25)

O tema da palavra e a questão da poesia, ou, mais genericamente, da literatura, na sua relação com a vida, atravessam este livro. Neste aspecto, somos sobretudo confrontados com o facto de o livro fechar as próprias saídas para onde à partida nos parece apontar. Assim é, por exemplo, quanto à possibilidade de compreensão, através da escrita, do que ilusoriamente nos pertence:

"Apoia-se sobre a caneta, descansa.
Tenta desenvencilhar-se desta carga de trabalhos,
compreender o que lhe pertence."
(VQNT, 46)

"É , escrever, um grito

que se mantém desmesuradamente próximo do corpo.
Rebenta daí a ilusão
de que tal acto nos pertence por inteiro.
E se uma palavra bastasse para nos salvar,

perderíamos a vida na sua escolha.
Perdoa-me não inscrever teu nome na cal
defronte a esta porta.
Oxalá possuísse palavra certa para te enviar."
(VQNT, 47)

Assim é, também, quanto à aparente capacidade redentora da poesia, quanto à possibilidade de salvação inscrita na palavra poética. Se o poema parece ter o poder de salvar, verifica-se, contudo, que as palavras não têm poder que chegue para suspender uma qualquer realidade:

"Quanto ao homem que aqui faz de poeta,
para se não sentir sozinho,
vai lá dentro pagar a despesa.
Aguarda um poema que o salve."
(VQNT, 43)

"O gesto mínimo traz em si todas as palavras
que não chegam para suspender este sufoco."
(VQNT, 31)

Assim é, finalmente, ao nível das relações entre a poesia e a vida. Bastaria comvocar um dos excertos atrás citados para termos clara percepção de que o sentido para a vida que a poesia proporciona implica logo, automaticamente, que essa mesma vida fique no domínio do potencial e se perca. Interessante é, notar, como os poemas denunciam essa traição que, afinal, é dupla, pois se é verdade que a literatura trai a vida, não menos é verdade que a vida também trai a literatura:

"Miúdos passavam, compravam gelados, admitem o verão.
Judas aceita o répobro dos olhares
sobre a garrafa, sobre os poemas, sobre a traição.

Não quis os trilhos do ouro, os trilhos do saber,
quis aproximar-se de Jesus e perde-se."
(VQNT, 24)

Jogamos a mão a um livro como se não se temesse a morte

e a voz que se escuta trai-nos de todo a vida."
(VQNT, 65)

A conclusão parece estar, então, na inconsequência da própria palavra poética, tão inconsequente quanto a vida que pretende redimir, ao ponto de ser incerta a intenção com que é brandida. Isso mesmo nos parece ser proposto no poema "O outro lado do dizer", um dos últimos do livro, o qual leva a dúvida ao ponto mais extremo:

"A palavra diz o que diz. Nenhum outro poder a atrai.
Mas o que é que a palavra diz?
Diz tantas coisas, tantas disposições, tantas intenções,
diz coisas que nem diz.

A palavra diz o que diz, nenhum outro poder a atrai.
E, se não sabe o que diz,
mostra aquilo que nem outrora quis. É preciso ver
ela nem sabe o que faz."
(VQNT, 73)

O segundo volume de poesia publicado por Paulo José Miranda tem por título A Arma do Rosto e é composto por dois "Livros": "Com Uma Fé de morte" (32 poemas) e "Três Mortes Pessoais e Outros Quatro Nomes" (7 poemas). Os textos do "Livro Dois" são talvez aqueles onde a contaminação biográfica, digamos, ganhou mais espaço. São poemas que têm destinatário explicitamente referenciado: familiares, amigos. Trata-se de poemas tocados pela morte ou onde ecoa a perda ou a distância:

"Faltas-me sempre que alguém parte, eu
ou o outro, faltas-me sempre
como a morte esta retórica escolhida para falar de ti
só de ti por cada poema."
(AR, 55)

"Não te preocupa nem a vida nem a morte porque são palavras
e funcionam não se sabe bem como e protegem-te das lanças dos dias
que temes mais do que qualquer possível paragem do coração.
Quando te vês com um copo incontrolável entre as mãos compreendes
o que te quero dizer ao fim e para lá destes quinze versos."
(AR, 59)

O tema das palavras, já presente nos excertos que acabo de citar, continua a ter peso neste volume. O poema "A palavra" é, precisamente, aquele onde essa presença e esse peso se apresentam com maior evidência:

"Houvesse uma palavra para cada mulher para cada sentimento para cada palavra
houvesse uma palavra que anunciasse a vida o amor a disciplina
houvesse uma palavra que afirmasse o humano e o humano afirmasse a palavra
houvesse uma palavra, Jesus, que nos levasse a Ti e Tu no-la dissesses
houvesse uma palavra God sake uma palavra ainda que estrangeira
houvesse uma palavra palavra universal como todo o que escreve a deseja
houvesse uma palavrainfantil palavra que mostrasse a avó ainda junto à casa
e houvesse uma palavra que fosse um livro para sempre
houvesse uma palavra que anunciasse a vida o amor a disciplina
houvesse uma palavra depois de ti depois de ti e de ti depois do desejo
houvesse uma palavra que nos queimasse a alma queimasse lábios como a mentira
houvesse uma palavra que fosse a garganta deste poema
houvesse uma palavra meu amor uma palavra que eu dissesse verdadeira
houvesse uma palavra que tu escutasses meu amor como eu a digo
houvesse uma palavra, Jesus, que Te não traísse e que fosse humana
houvesse uma palavra que anunciasse a vida o amor a disciplina
houvesse uma palavra para cada mulher para cada sentimento para cada palavra
houvesse uma palavra que afirmasse o humano e o humano afirmasse a palavra"
(AR, 27)

O último verso seria suficiente, por certo, para trazer à nossa lembrança Jorge de Sena, não fosse este poeta explicitamente invocado em outros dois poemas – "Adamastor" (AR, 47) e "Em Creta, com Sena e o Minotauro" (AR, 16) – ou numa passagem escolhida, a par de versos de João Miguel Fernandes Jorge, para epígrafe do volume. De facto, esse último verso remete, não só, para a afirmação de uma ética – cujo ponto mais alto poderá ser em Jorge de Sena o poema "Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya" –, mas também, de forma mais genérica, para a concepção da poesia como testemunho defendida por Jorge de Sena. Sena e Fernandes Jorge afirmam-se, então, como elos de uma tradição de realismo e circunstancialidade onde Paulo José Miranda vem deliberadamente inserir o seu próprio dizer poético.

Mas o poema "A palavra" é ainda emblemático no que respeita a alguma evolução que se regista na poesia do Autor entre A Voz Que Nos Trai e A Arma do Rosto. Em primeiro lugar, deve destacar-se que as repetições de versos inteiros ou de segmentos mais reduzidos, já presentes no primeiro livro, se tornam agora mais recorrentes; no poema em causa, e para além da repetição em todos os versos do segmento "houvesse uma palavra", veja-se como os três primeiros versos correspondem aos três últimos, embora seja diferente a ordem, e como o nono verso reproduz o segundo; na repetição há um propósito de destaque, mas trata-se igualmente de um processo que tendencialmente acentua a circularidade do poema, mas também a sua inconsequência. Por outro lado, e ainda ao nível formal, registe-se um menor recurso à pontuação, funcionando esse apagamento no sentido de apresentar o poema como um contínuo; ainda no poema "A palavra", repare-se que apenas há vírgulas a rodear a palavra "Jesus". Finalmente, tenha-se em atenção que os versos e os poemas são tendencialmente mais longos, assumindo esta poesia um pendor mais abstracto, uma carga mais reflexiva, especulativa.

Os versos de Paulo José Miranda continuam, neste segundo volume, a reflectir uma aguda preocupação em pensar a poesia, desde logo nas suas relações com a vida – assim aumentando o raio das circunferências de sentido já esboçadas em A Voz Que Nos Trai –, por exemplo em versos como "eu raposa a olhar as doces uvas a saber que ao não colhê-las vem um verso" (AR, 32) ou "Vingo com versos os dias em que a tristeza me não deixou fazer nada" (AR, 46). Na poesia de Paulo José Miranda é ainda detectável, dando expressão a este conflito entre literatura e vida, a desconfiança face à "palavra impostora" (AR, 17), a qual se estende ao literário, no que este tem de menor. Assim, se por um lado a literatura pode ser um "vício atroz" (AR, 41), por outro lado deve ter-se presente que para a literatura conta sempre muito mais a vida do que a própria literatura, conforme se pode inferir de um poema acerca dos protocolos devidos na leitura:

"E depois para um critério do poema não bastam os argumentos do poema
as outras vidas encarregar-se-ão de mostrar o que os meus genes não fizeram
não é que não tenha existido a inspiração que sempre terá de existir
nem que além da sensibilidade e do entendimento não haja uma ideia
mas o vosso desentendimento com a mulher pode até ser mais hermenêutico
os outros livros que lestes são seguramente muito mais determinantes
e tudo aquilo que se não aprendeu tudo aquilo que se não teve coragem de viver"
(AR, 25)

A literatura será sempre algo de virtual, algo que não ocorreu enquanto vida e que definitivamente se perde, no plano da vida, a partir do momento em que se torna uma realidade textual:

"Só no livro conhecemos aquilo que teimamos denominar princípio e fim
e algo que assinalar página a página inseguramente por sobre o branco
porque sejamos quem formos alguma coisa nunca será vivida.
E o que fazer com este tempo que vai passando pelo meu nome
gostaríamos que ele passasse veloz não para o futuro mas para o melhor
e o melhor é sempre esta incapacidade para o presente que não seja um verso.
Amar o que ainda não veio é o único meio verso que desconhece a vida
e à página dezanove é ela quase toda."
(AR, 19)

O livro oferece-nos ainda uma visão perjorativa quanto ao papel social da poesia, considerado irrelevante ou nulo, patente num verso como "a poesia não é para mãos sem dinheiro" (AR, 15) ou nos últimos versos de um poema que, significativamente, tem por título "Requiem pela poesia":

"já não há sossego dentro e fora dos corações apenas muito desejo e medo
e não parece que poesia cure doenças ou ponha comida na mesa
se nem a malta das universidades lhe pega é porque coisa boa não é
não devemos conhecer mais palavras do que as que nos fazem realmente falta."
(AR, 30)

Neste livro continua a predominar o desencanto e a impossibilidade da vida. Estamos a salvo enquanto "não se avista nenhum sentimento" (AR, 22), mas nada garante a impenetrabilidade das defesas, havendo armas com poder bastante para tornar vulnerável a armadura:

"mas o vazio das vinte e quatro horas preenche-se sempre tão pouco
que ninguém tem coragem de perdoar ao outro tê-lo deixado de amar
trazias uma vírgula no coração e o cabelo de modo a mostrar a arma do rosto."
(AR, 24)

O vazio e o nada encontram ainda expressão em versos onde se afirma que "tudo leva a crer que logo vai ser uma verdadeira tarde de carnaval por este país / porque só o nada faz sentido numa alma humana só uma insignificância." (AR, 29), a par da constatação de que "Não há mais tempo adiante sequer a chuva qualquer traço de vida / prisioneiro da angústia não dormes e com dificuldade respiras" (AR, 35). Mas o mais absurdo é não aproveitarmos as alternativas quando elas constituem hipóteses concretizáveis, como parece ser sugerido no poema "O abutre do sol":

"Estar dobrado sobre o que gostaria que lhe acontecesse e os pés quase na água
ali firme na humidade da terra e apreensivo com a antecipação de um frio maior

[...]
levara sempre assim a sua vida e já lhe custava perder os sonhos do que não fazia
[...]
na próxima segunda-feira já estará no escritório com calor e gravata
deverá então dizer a algum colega que só se está bem na praia dentro de água
estar dobrado sobre o que gostaria que lhe acontecesse e os olhos numa factura."
(AR, 34)

Deixo para o fim o poema "A tarde esquecido de mim". Creio que constitui o texto mais solar, digamos, de todo o volume. Esse esquecimento que o título anuncia, aliado a uma intenção de partilha, tem por pano de fundo uma fé para onde convergem, por um lado, as palavras e o silêncio e, por outro lado, os nomes do poeta e do santo. Com a precária e breve paz desse poema termino:

"Julgo ser capaz de ficar toda a tarde esquecido de mim
sentado nesta mesa da Pastelaria do Largo de São Paulo de fronte à igreja
do santo meu homónimo e a única que frequento
quatro vezes por ano no início das estações.
Mas tenho um compromisso e antes dele o silêncio de Cristo espera-me
aguarda todas as palavras que eu consiga encontrar nesta fé
para depois partir ao encontro de mais uma dor um fim de cigarro qualquer.
Os mendigos na Praça entreajudam-se nesta hora de repouso sob as árvores
pedem-me o tabaco que partilham como pão de Deus e agradecem
na igreja o seu deserto atinge-me com lágrimas de emoção
como se só eu fosse esperado pelo Filho e pelo Pai nessa hora.
Vinte vinte e cinco minutos depois regresso ao sol insuportável das três
já não me queixo da vida e desculpo os gestos mais vis das pessoas
julgo ser capaz de ficar toda a tarde esquecido de mim."
(AR, 48)

Texto de José Ricardo Nunes in 9 Poetas para o Século XXI, Angelus Novus, Coimbra 2002

 

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