English Version

O Hotel de Bebek

Numa mesa do hotel de Bebek,
a sua atenção dividia-se
entre os poemas
tristes, coloquiais, verdadeiros de Orhan Veli
e a escandalosa beleza do Bósforo.
Um poeta que odiava a literatura

e uma paisagem que era literatura
para qualquer um que não poeta.
Mas uma pergunta invadia
a sua dividida atenção: que faço eu aqui,
eu que vejo sempre o outro lado das coisas
quando elas se me deparam?
A música, popular e americana,

lembrou-lhe a adolescência portuguesa,
tão longe da realidade quanto a vida
pode estar do homem que a carrega.
Os barcos, assíduos como carros
numa transversal da Avenida da Liberdade,
transportavam tudo menos uma palavra.
Talvez uma palavra, sim,
não uma vida nessa palavra.
No poema de Veli,
que em outra língua se pode chamar «Suícidio»,
lia:

« Devo morrer sem dizer nada a ninguém.
Haverá um fio de sangue a um canto da minha boca.
Aqueles que me conhecem
Dirão:
“ Sem dúvida, amava alguém.”
(...)»

Interrompeu a leitura com um sorriso,
a língua turca, que não conjuga o verbo
ser, era-lhe mais familiar
do que a paisagem,
do que as pessoas que entravam e saíam,
mais familiar do que a rua onde crescera,
mais familiar do que as palavras
na boca dessa rua.
Sentimo-nos mais perto
da solidão do que da cidade.
Que faço aqui, perguntava,
como se estivesse ainda em Lisboa
e não soubesse mais nada do que dizer mal,

de um amigo,
de um novo livro,
dos políticos,
de alguém que nos entretém num jornal
e julga ser mais do que isso,
dos homens que não fazem senão dizer mal.
Sentado no hotel de Bebek,

diante da beleza das mulheres de Istambul
já nem sabia como amar a sua mulher.
Em breve, o sol

abandonará este território do mundo.
Começará aqui o tempo,
de entretenimento,
começará o tempo do emprego,
começará o tempo do passado
à secretária do jovem que atenta
num poema antigo,
ainda que seja para prover mais tarde
o entretenimento ou o emprego.
Uma vida como acertar
o despertador e acordar com ele.
Uma vida como um hotel
que regista, quase sempre para nada,
os seus hóspedes.
Uma vida como uma mulher,
jovem e bela, com quem alguém se deita
como um hotel.
Veli terminava o seu poema:

« Aqueles que me conhecem, irão dizer,
“ Ainda bem para ele. Pobre homem, sofreu tanto.”
Mas a verdadeira razão não deve ser nenhuma delas.»

O Bósforo, como um princípe,
mantinha todo o seu decoro.
E as gaivotas, sempre que conseguiam,
de peixe na boca.
O outro lado das coisas.

in O Tabaco De Deus, Cotovia, 2002

 

« Outros Poemas

« Voltar