O céu rasga-se,
deixa passar a água para o mundo.
E um cheiro a medo cobre a encosta,
com os ruídos aflitos dos animais
e a tristeza miúda dos homens,
a lembrar um dia de caça.
Dá-se o último golpe na lenha,
os passos apressados na lama.
Quem abre a porta de casa
deixa entrar
a imagem do céu
que o macerou todo o dia.
Leva para a mesa as mãos
que escondeu na terra
e se tornaram raiz.
Mãos que não repousam,
seguram o rosto
sob a água dos céus.
(Inédito)