A casa é uma ferida,
a humanidade que se carrega
ao enterrar dos mortos.
Afastam-se as cortinas
e sente-se uma flecha na carne,
que confundimos
com a ternura tépida do chuveiro,
amor que hoje temos garantido.
E comer depois comprimidos
doces, frescos, da época,
de modo a sermos saudáveis.
Mas quem abraçamos são uns
e quem nos abraça são outros.
O céu, gato vadio sobre o telhado,
não se senta em nenhum colo.
É
antes pegar na enxada,
esfacelar a terra ao encontro da vida,
umas batatas, uns nabos, umas couves.
Arder as mãos e cuspir-lhes em cima,
como se isso não fosse
o que nos fazem dia a dia.
(Inédito)